top of page
Buscar

A Justa Injusta

 

As três amigas estavam sentadas à beira da rua tomando chá como costumavam fazer todas as tardes, observando o movimento enquanto reclamavam de Diamantes. Riana a dona do Ateliê que servia de ponto de encontro do Clube do Chá das Revoltadas comentava sobre o hediondo ocorrido no trevo da vila em que uma senhora de idade fora assaltada e estuprada por seu próprio inquilino. Os guardas pouco fizeram como sempre, quando tomaram providência de alguma coisa o elemento já havia gastado todo dinheiro da mulher. Diamantes se tornara uma terra sem lei, onde o sentimento do povo era de que só haveria justiça se essa fosse feita com as próprias mãos, não atoa Edinho Zumbi tivera o dedo polegar da mão direita arrancado dias antes depois de furtar uma casa. O código de talião estava voltando à moda assim como as mangas bufantes que  marcaram época nos idos anos de 1032 d. C. Riana Costureira, Nívia Curandeira e Amanda Cigana eram o suprassumo da sensatez e do bom senso de Diamantes, não fossem tão esquentadas teriam sido eleitas para o Conselho dos Nove com uma margem de votos expressiva, conheciam as mazelas e precariedades da vila como ninguém, e tinham sempre uma boa solução para os problemas locais, não era raro as pessoas aparecerem ali no Ateliê para pedir-lhes conselhos e orientações. A Razão amanheceu grávida no dia em que as três vieram ao mundo, era o que Roberto, esposo de Riana sempre dizia. Luciano Peixe-Boi, primo da costureira por parte dos Oliveiras, parou com sua charrete à porta do Ateliê, ele era um homem alto e corpulento, de temperamento irritadiço, o que era bem comum entre os membros de sua família. Os Oliveiras eram uma das linhagens dos fundadores de Diamantes, uma família de soberbos artesãos que gostava de falar alto e  brigar por pouca coisa. Peixe-Boi fazendo jus a sua dinastia se envolvera numa briga no dia anterior na Taverna do Zé Carlos, e tinha um olho roxo  e uma atadura na mão esquerdar, o primeiro fora um soco que levara de Bardo Golias, o segundo um soco que dera neste:

— Você não toma jeito, não é primo? Meu irmão estava contigo? — perguntou Riana, rindo de deboche.

— Bicho Pau estava na taverna, mas saiu de mansinho depois que a coisa começou a esquentar. Desde ontem que não o vejo! A propósito, pode ajustar um vestido para mamãe?

— Claro que posso, deixe com Roberto, que depois dou um jeito nisso. Você tem as medidas?

— Tenho, sim, ela pediu que tirasse três dedos no quadril e dois nas costas. Não sei se foi o vestido que alargou ou se foi mamãe que encolheu! — falou Peixe-Boi com uma sonora gargalhada.

— Esse não é o vestido que ela ganhou de Vó Matriarca, nos idos tempos do Cavaleiro Azul?

— Esse mesmo, prima. Ela inclusive estava usando ele no dia do Torneio da Justa Injusta!

— Eu ouvi sobre essa história um vez, — falou Amanda — de quando o Cavaleiro Vermelho derrotou a Cavaleira Terra-Cota num duelo. 

— Sim, mas na verdade ele não derrotou ela, a história foi a seguinte… 

Eram os dias do Jubileu de Prata do senhorio do Cavaleiro Vermelho sobre a Torre de Diamantes, ou coisa do tipo. O nobre varão prometera ao povo um grande banquete com direito a pantomimeiros, menestréis e justas de cavaleiros, as ruas se encheram bandeirolas azuis e decorações com trombas e orelhas de elefante. No pátio da torre, duas arquibancadas foram montadas ladeando a arena onde seriam feitas as apresentações, e um camarote para dar assento aos lordes e fidalgos. Até algumas caravanas da região do vale vieram à vila participar dos festejos. Cavaleiro Vermelho e seu fiel Escudeiro Laranja, passeavam pela feira de Santo-Antônio quando ouviram um arauto do Cavaleiro Azul convocar os guerreiros de Diamantes para o torneio da justa, cujo prêmio seria um cavalo mangalarga marchador zero bala:

— Pena que você não tem aptidão para esse tipo de coisa, não é mesmo meu senhor!? — interpelou o Escudeiro — Um corcel desses seria uma mão na roda para nossa academia.

— Porque você acha que eu não tenho aptidão para uma justa, Benrard? Já me viu empunhar uma lança?

— Por isso mesmo, mal mal o senhor sabe bramir uma espada curta, que dirá cavalgar com uma lança com o dobro do seu tamanho nas mãos!

— Insolente! — exclamou nosso herói dando um cascudo em seu criado. — Pois saiba que vou me inscrever para o torneio, e você vai me vestir com minha armadura peça por peça, amarrando todas as tiras ainda que demore uma hora inteira.

— Aquela armadura que o senhor fez com metal de panela furada que parece ser trezentos anos mais velha que o senhor?

Cavaleiro Vermelho berrou com seus olhos castanhos lacrimejando de raiva e contrariedade:

— Eu não te aceitei na minha academia para ficar me esculhambando como se eu fosse um débil mental que sapateia sem música, Benrard Ninguém Pode, da casa dos Souzas! 

— Desculpe, senhor, não queria ofender, só estava tentando ser realista.

— Pois participar dessa justa meu jovem, será de grande valia para fazermos praça de nossa Academia de Cavaleiros, é a chance de mostrarmos para toda Diamantes quão valorosos são nossos homens e assim conquistar as mentes e os corações dessa gente para nossa causa!

— Mas e se o senhor passar vergonha lá?

Cavaleiro Vermelho encarou o Escudeiro Laranja com um olhar que misturava apreensão e reprovação.

No dia Seguinte antes do amanhecer, estavam ambos no Templo da Academia. Enquanto o cavaleiro treinava o uso da lança, o escudeiro polia a opaca armadura de seu senhor. O Templo da Academia dos Cavaleiros Diamantes ficava no alto da Colina do Cemitério, um pequeno complexo de ruínas dos antigos povos Númios que ali viveram séculos antes da fundação da vila, nosso herói adquirira o espaço de um comerciante por um preço não muito salgado dado que diziam ser o local assombrado por espíritos imundos. O teto de madeira destruído pelo tempo fora reconstituído com uma generosa cobertura de erva de sapê, as antigas colunas de mármore, em estilo jônico,  que cercavam todo perímetro do edifício principal estavam rachadas, mas o musgo que as revestia fora limpo para instalação do centro de treinamento, uma fonte ao lado leste que depois de secar passou a servir de depósito de caqueiras dos moradores da vizinhança fora limpa e colocada mais uma vez para jorrar água. A estátua de Atenas, munida de escudo e lança que perdera a cabeça em algum momento turbulento da história, continuava decapitada, mas um pouco mais bem tratada depois de ter as ervas daninhas arrancadas de seu entorno e passado um óleo de peroba para dar brilho à pedra. Os dois ficaram ali compenetrados nos preparativos para o torneio da justa durante toda a manhã e princípio da tarde, quando pararam para almoçar e repousar. Cavaleiro Vermelho preparara uma travessa de lambari frito com farofa, e uma polenta bem consistente à moda italiana, Escudeiro Laranja trouxera uma cesta de frutas que roubara da casa de sua mãe com pitaias, figos e caquis. Após comerem até ficarem saciados se deitaram à sombra de uma castanheira para fazer a digestão:

— Cavaleiro Vermelho?

— Pois não, jovem escudeiro. — respondeu nosso herói, estando já com os olhos pregados de sono.

— Você acha mesmo que um dia vai conseguir se tornar o senhor da Torre de Diamantes?

— Não quero ser senhor da torre, quero destruí-la. Sentar-me no Trono de Rosseto como se sentou Cavaleiro Cinza, como se senta o Cavaleiro Azul, e como mais cedo ou mais tarde se sentará o Cavaleiro Verde, fará de mim somente mais um homem que se põe acima dos outros, mais preocupado em receber do que dar.

— Mas a torre protege a vila do ataque dos Trolls, meu senhor, sem ela estaremos indefesos.

— Não, escudeiro, estaremos indefesos enquanto acreditarmos que a força dos poucos é maior do que das multidões. A Torre foi erguida para proteger apenas aquele que se senta em seu trono, aos demais ela submete qual julgo de um carreteiro nos lombos de um burro de carga. Enquanto as pessoas desta vila levantam bandeiras verdes e azuis, e gritam “eu sou do coelho” ou “eu sou do elefante” a torre se mantém firme no seu propósito de distribuir para quem pouco falta e manter no pouco quem necessita. A torre é filha da covardia dos grandes e da alienação dos pequenos, enquanto ela permanecer de pé, todos nós que nos julgamos homens e mulheres livres estaremos de joelhos. 

— Isso é muito nobre de sua parte, senhor Cavaleiro Vermelho.

— Obrigado, meu fiel Escudeiro Laranja.

Chagado o glorioso dia do torneio o povo da vila de Diamantes se reuniu nas redondezas da torre, barraquinhas de quermesse foram armadas por toda parte onde se vendiam cocadas, churrasquinhos, frutas caramelizadas e pães e queijos de toda sorte com muito vinho, cerveja, água-ardente e outras bebidas. O cheiro de frituras e assados chegava ao longe atraindo cães e gatos para a comemoração do Jubileu do Senhor da Torre. Bandeirolas e estampas com os escudos das famílias fundadoras de Diamantes enchiam o local de cores vivas, crianças fantasiadas de princesas e guerreiros corriam para todos os lados, enquanto os adultos dançavam ao som das flautas e tamborins dos menestréis. Pantomimeiros e mágicos garantiam o entretimento dos mais exigentes, com espetáculos pirotécnicos e de ilusionismo. Cavaleiro Vermelho puxando seu corcel chamado de Lithium pela rédea, vinha acompanhado do Escudeiro Laranja. e tratou logo de ir até o arauto que fazia as inscrições para o torneio, a maioria dos que deram seu nome para participar eram camponeses e artesãos inexperientes com o uso da lança, mas havia uma dezena de homens e mulheres de grande estirpe em se tratando da cavalaria, como Ícaro, o Cavaleiro Roxo, ou Sir Victor, o Cavaleiro Arco-Íris. Um velho carcomido como Matusalém vestido com uma armadura enferrujada e uma lança que mais parecia uma vara de bambu de tão mal feita se apresentou para o torneio das justas, mas o arauto não o quis inscrever devido a sua idade avançada:

— Meu senhor, não insista, não é de nosso intuito levar para o Reino de Nosso Senhor Jesus Cristo ninguém neste dia, se a pé vossa senhoria já corre risco de vida quanto mais montado no lombo de um pangaré cegueta! — exclamou o arauto fazendo todos caírem na gargalhada.

— Co-como ousa, seu patife! — retrucou o velho, indignado — Eu sou Sir Mágelos, o Cavaleiro Estridente, eu fui Senhor da Torre Diamantes quando Cavaleiro Cinza partiu numa expedição para auxiliar Sua Majestade Real em uma guerra contra seus inimigos nos idos anos de 916d. C. Fui um administrador tão sábio e valoroso que o povo clamou que eu ficasse por mais tempo no trono! E é assim que sou tratado agora?

— Desculpe Sir Cavaleiro Esquecido…

— É Cavaleiro Estridente!

— Como quiser, mas por sua segurança não posso permitir que vossa senhoria participe desse torneio.

— Pois vá pentear macacos, seu filho de um chocadeira sem pena! — praguejou o velho virando as costas para ir embora.

Cavaleiro Vermelho se aproximou do arauto para dar seu nome, ele suava uma túnica vermelha sem mangas de barra alta com a Borboleta Monarca estampada no peito, seus cabelos ondulados estavam partidos ao meio e um pouco frisados por conta do vento. Antes que pudesse ser notado pelo arauto uma figura incauta tomou sua frente indo fazer sua inscrição o que o deixou irritado:

— Tem certeza que consegue competir numa justa com essa perna manca?

Tratava-se de Lady Polência, vulgarmente conhecida como Cavaleira Terra-Cota, uma mulher altiva e perspicaz, de índole conservadora e moralista.

— Nunca falhou em chutar a fuça de gente entrona, milady. — retrucou nosso herói.

— Dizem que forjou sua “espada mágica” no mesmo dia em que adquiriu este estigma, como conseguiu trabalhar na forja de seu pai sentindo dores tão intensas?

— Eu estava extasiado pela força do meteorito, não sentia nada além da vontade de forjar Laisa.

— Isso me parece mais coisa do Diabo…

— Me cede a passagem, milady? — perguntou ele apontando em direção ao arauto.

Cavaleira Terra-Cota, então, se retirou para as baias enquanto nosso herói se inscrevia para o torneio.

— Que mulher petulante, meu senhor, como ela ousa falar assim como vossa magnânima reverendíssima pessoa? — falou Escudeiro Laranja enquanto caminhavam pelas tendas da quermesse ao aguardarem o momento do torneio. 

O céu aquele dia estava azul como o manto de Nossa Senhora dos Pretos, uma grande nuvem pairava sobre o horizonte montanhoso da vila, se formando lentamente em figuras que só a imaginação era capaz de conceber. Cavaleiro Vermelho se ajoelhou e pegando uma pedra em mãos questionou seu jovem criado:

— Por que as pedras caem e as nuvens voam?


— Não sei, meu senhor.

— Aristóteles, um sábio da antiguidade, dizia que todas as coisas são feitas de quatro elementos: água, ar, terra e fogo. E cada qual tem seu lugar natural de repouso. A terra e a água repousam no chão, o fogo e o ar repousa no céu. A pedra é feita de terra e repousa no chão, mas e as nuvens de que são feitas?

— Seriam feitas de ar?

— Talvez, mas e as chuvas, não são água das nuvens? E os trovões, não são seu fogo?

— Creio que sim Cavaleiro, faz todo sentido.

— Algumas pessoas, Benrard, são como as pedras, feitas apenas de um elemento, e por isso são rasas e superficiais, mas outras são feitas como as nuvens, profundas e complexas, a pedra lançada ao céu logo encontra seu repouso no solo, já a nuvem pode passar dias em movimento sem saber se repousa no chão ou no céu.

— Está querendo dizer que o senhor é a nuvem e a Cavaleira Terra-Cota é a pedra?

— Estou querendo dizer que, às vezes, estamos mais distantes de alcançar nossos objetivos do que outros, não porque somos menores, mais porque aspiramos coisas mais grandiosas.

— Quanta sabedoria, meu senhor!

Os dois permaneceram ali em silêncio contemplando a vista e refletindo em seus corações. Eles estavam em paz, apesar da contrariedade ocorrida momentos antes, suas almas vibravam em perfeita sintonia, estáticos, mudos, inefáveis. Escudeiro Laranja soltou um peido, e rompeu com aqueles estado de êxtase em que haviam imergido:

— Acho que pensei demais! — falou ele.

— Eu disse pra não comer torresmo com rapadura, sua peste! Ardeu até meu nariz.

Quando chegou a hora do torneio sorteou-se  o nome dos cavaleiros participantes, os primeiros a se enfrentar foram Sir Victor, o Cavaleiro Arco-Íris e o Guarda Tetê, que não entendia nada de justas, mas resolveu participar mesmo assim. Na melhor de três o primeiro enfrentamento foi ridículo, Tetê caiu do cavalo logo que saiu da raia, de tão bêbado que estava, no segundo Cavaleiro Arco-Íris acertou a lança bem no meio de seu peito arremessando para longe, a plateia gritou ensandecida tamanha fora a precisão do golpe que lhe deu a vitória. O duelo entre Cavaleiro Roxo e Lorde Lothson, foi extremamente tenso, com Cavaleiro Roxo sacando a espada após derrubado com uma lança cheia de esferas de chumbo para torná-la mais pesada, o que era contra as regras do torneio. Os juízes pediram vistas da justa e repetiram a rodada. O primeiro enfrentamento do Cavaleiro Vermelho, foi contra Sir Jean de LeBlanc, o Cavaleiro Bigode Fino,  um barbeiro da vila que dominava as artes da cavalaria:

— Empunhe a lança da altura entre a quarta e a quinta costela, onde Nosso Senhor foi ferido na cruz, assim terá mais firmeza e, ao mesmo tempo, flexibilidade, essa justa é sua, camarada, mas não vou permitir que seja uma vitória fácil. — falou Jean de LeBlanc com nosso herói, que nem se atentou muito à instrução tamanho seu nervosismo.

Na primeira rodada, os dois deferiram um golpe de impacto um contra o outro, ambos perderam o equilíbrio, mas se mantiveram nas selas, os juízes consideraram como empate. Jean indicou a costela na qual o Cavaleiro Vermelho deveria encaixar a lança, e dessa vez ele fez como fora orientado. Na hora do impacto Jean foi empurrado com tanta força que ficou deitado na sela, nosso herói se desequilibrou, porém, logo voltou à postura ereta marcando um ponto. A justa foi vencida na melhor de três, com Sir Jean de LeBlanc caindo da sela a rodada de desempate levando a plateia aos gritos. Os embates se estenderam por toda a tarde, quando o Sol já ia se escondendo entre as montanhas tingindo o céu com tons de roxo e vermelho, a Justa Final foi finalmente anunciada: Cavaleiro Vermelho enfrentaria a Cavaleira Terra- Cota.  Instantes antes de montar seu cavalo, nosso herói, pediu para que Escudeiro Laranja lhe trouxesse sua espada Laisa, pegou-a nas mãos e beijou sua lâmina, o metal estava morno como de costume e exalava um perfume de uvas malbec, mas havia uma pertubação sutil na energia que dela emanava, Cavaleiro Vermelho pensou até que se tratasse de alguma ameaça nas redondezas do Reino dos Feéricos, mas aquilo logo cessou, talvez fosse apenas ansiedade em enfrentar a líder da Hoste Carioca, uma companhia de guerreiros juramentados à Torre de Sangue e ao Espírito de Xalabacândara, que aspiravam a suserania sobre a vila de Diamantes. Ele então, focou seu pensamento em seu amado Príncipe Necus e guardando a espada montou no cavalo. Quando sua adversária apontou do outro lado da arena, com sua armadura rica em entalhes florais e plumas coloridas ele sentiu um calafrio perpassar sua espinha, seu coração acelerou e suas mãos suavam como cirola de freira em dia de Quaresma. Os juízes deram ordens para que ambos se colocassem em posição. Eles fecharam a viseira dos elmos e alinharam as lanças. Com sinal sonoro os largaram da raia e cavalgaram a toda velocidade, Cavaleiro Vermelho a meio caminho do impacto sentiu como que algo lhe puxando os ombros para trás, o que o deixou desestabilizado. Quando a lança da adversária acertou seu peitoral ele foi lançado para fora da sela. Os juízes deram o ponto para Cavaleira Terra-Cota. Parte da plateia vaiou decepcionada.

— O que houve, cavaleiro, o senhor estava com ela na mira. Como conseguiu cair tão fácil assim? — perguntou o Escudeiro Laranja indo acudir-lhe.

— Há alguma coisa de erra na armadura daquela mulher, não sei se é alquimia ou magia de fato. Ela não está jogando limpo. — falou enquanto se levantava. — Pegue na minha algibeira um frasco de vidro, com um líquido amarelo.

O Escudeiro seguindo as instruções entregou nas mãos do nosso herói o objeto:

— Isso é mijo?

— Sim, mijo de duende. É um acusador de magia e encantamentos. Passe na minha armadura.

— Credo senho, isso fede peixe podre! — exclamou o criado destampado o frasco.

Os dois cavaleiros tomaram suas posições nas raias  e  ao som do sinal cavalgaram um contra o outro. Estando a uns dez metros de distância do impacto a armadura do Cavaleiro Vermelho começou a reluzir em tons fluorescentes de verde, o que fez a plateia ficar abismada. Ele rapidamente ergueu sua lança para o alto  em posição de desistência de inclinou-se para esquerda desviando da lança da Cavaleira Terra-Cota. Os juízes percebendo se tratar de uma requisição fizeram sinal para suspender a rodada. Cavaleiro Vermelho desceu do Cavalo e tirando o elmo, gritou para toda plateia:

— Ela está usando magia para vencer as justas! A armadura dela tem algum tipo de encantamento que desequilibra os cavaleiros na hora do impacto. Por isso ela conseguiu vencer todos os competidores até aqui.

Entre gritos de surpresa e vaias, a plateia entrou em frenesi. Os magos da torre foram chamados para averiguar se de fato o que Cavaleiro Vermelho dizia era verdade. Os juízes discutiram se deviam ou não cancelar o torneio, dado que Cavaleira Terra-Cota de fato trapaceara, mas nesse ínterim o Senhor da Torre desceu do camarote indo até a arena, depois de dar ordens aos árbitros foi até nosso herói e o declarou, num ato de nobreza, como vencedor do tornoio:

— Só pelo fato de se tornar um hábil guerreiro e montador depois de tudo que passou pela ignorância do povo desta vila já seria digno de ser chamado campeão. Sei de suas intenções quanto a Torre e quanto a mim, mas até mesmo os inimigos mais mortais podem agir de forma honrada um para como outro. Esse prêmio é seu, Jovem Ferreiro, use-o com sabedoria. — disse o Cavaleiro Azul segurando seu ombro com firmeza.

Quando ele ergueu a mão de nosso herói em direção aos céus, a plateia gritou ensandecida jogando mantos e rosas em sua direção. Depois daquele dia, muitos jovens e varões de Diamantes pediram para se alistar na Academia de Guerra do Cavaleiro Vermelho.


 
 
 

Comentários


bottom of page